que faz um bom professor”.
Para a maior parte das pessoas Nuno Crato é um difusor da paixão pela matemática, que se tornou conhecido através da sua participação em programas televisivos sobre ciência e através da publicação periódica de artigos de divulgação em jornais e revistas. Para outros, mais atentos às “guerras da matemática”, como lhes chamou Ron Aharoni numa conferência internacional sobre “Ensino da Matemática”, organizada recentemente por Nuno Crato na Fundação Calouste Gulbenkian, trata-se de uma figura polémica que ousou por em causa as fundações do “eduquês” dominante entre as autoridades educativas do país. A ousadia ter-lhe-á causado alguns dissabores, pois, segundo confessou, em certa ocasião chegou a ser impedido de entrar numa escola de formação de professores para o ensino básico. Daí também a sua perplexidade, que referiu no início da conferência, por se encontrar, pela primeira vez, numa escola superior de educação, a convite da direcção da mesma, para falar de educação.
Para Nuno Crato educar é uma arte que beneficia de um conjunto de indicações fornecidas por várias ciências, da mesma forma que a medicina ou a engenharia beneficiam dos conhecimentos da biologia, da matemática e da física. É uma prática que pode ser altamente organizada, como a medicina ou a engenharia, mas não é uma ciência como a biologia, a matemática ou a física. O professor é assim comparável a um artista, a um engenheiro, enfim a um cirurgião. Não existem ideias nem palavras absolutas na sua profissão: “Como professores aplicamos receitas, adaptamos saberes para melhor os transmitir, enfim, tentamos fazer o melhor possível.” O sucesso dessa acção depende de muitos factores e, obviamente, da paixão investida na profissão.Não existe uma fórmula universal para ser bom professor, não existem receitas milagrosas para tal. Todavia, segundo Nuno Crato, existem uns quantos princípios que um professor não pode deixar de respeitar se quiser ser, de facto, um bom professor. São princípios de bom senso que, apesar de não serem suficientes para o exercício da profissão, se afiguram como incontornáveis. Não é necessária nenhuma faculdade especial ou talento excepcional para os seguir, basta respeitá-los e aplicá-lo
s com bom senso.
Segundo o conferencista, o primeiro princípio diz que para ser bom professor é preciso dominar muito bem as matérias que se ensinam. É também necessário conhecer essas matérias de forma mais profunda e mais extensa do que aquilo que se ensina.
Nuno Crato realça o conhecimento dos conteúdos, o domínio daquilo que o professor pretende ensinar e pretende que os alunos aprendam. O domínio das matérias é crucial. Se o professor não dominar profundamente o assunto que tem de ensinar vai sentir muita dificuldade em explicá-lo em todos os seus detalhes e segundo diferentes ângulos. Se o professor não dominar o assunto para além do conteúdo estrito que ensina, vai ter dificuldade em estimular e em acompanhar os alunos, caso estes desejem aprofundar o seus conhecimentos sobre o assunto. E também não conseguirá responder de forma adequada às perguntas dos alunos, que são oportunidades preciosas para os motivar e para os ganhar para a causa do saber. Só conhecendo os conteúdos com segurança é possível induzir respeito pelo conhecimento, pelo saber e por quem ensina.
Nuno Crato constata com tristeza a perseguição movida à palavra “ensino” nos documentos oficiais. Questionado acerca das razões pelas quais se pretende banir essa palavra, o conferencista esclareceu que a palavra soçobrou a uma vaga de conotações ideológicas que a associaram a um tipo específico de ensino. Em substituição passou-se a falar de “aprendizagens”. Algo de parecido aconteceu com a palavra “conhecimento”, que é preterida e substituída por um discurso sobre “os saberes”.
É claro que existe aprendizagem sem ensino e existe, certamente, ensino sem aprendizagem. Porém, a psicologia mostra que mesmo aquilo que uma criança poderia aprender sem ser ensinada, é preferível aprender sendo ensinada. Além disso, quando se fala em ensino, pressupõe-se que exista aprendizagem. Caso contrário, estaríamos na posição anedótica do sujeito que afirmava ter ensinado o seu gato a falar e que, perante a constatação de um seu amigo de que o gato realmente não falava, rematou: “eu ensinar, ensinei, ele é que não aprendeu!”
Muitas vezes, perante uma ou outra adversidade, os alunos perguntam: “para que é que me serve isso?” O professor não deve levar a pergunta à letra. E não deve deixar-se embrenhar no discurso utilitarista, segundo o qual só tem sentido aprender algo que tenha utilidade óbvia e imediata no quotidiano do aluno ou numa futura actividade profissional. Primeiro, porque hoje em dia é praticamente impossível dizer o que vai ser mais útil e relevante numa actividade profissional futura. E, em segundo lugar, porque o que se pretende é sedimentar uma cultura de valorização do conhecimento e do saber, de curiosidade pela ciência e de interesse no seu estudo. A verdadeira utilidade é consequência de muito esforço e de muito trabalho, não é um ponto de partida.
O segundo princípio para ser bom professor, segundo Nuno Crato, é ser organizado.
Não basta ser dinâmico, espontâneo e reactivo. A organização e a espontaneidade não são incompatíveis. A relação entre o professor e o aluno não é uma simples interacção e o professor não se limita a deixar o aluno descobrir as coisas. A matemática, a física e as outras ciências, são construções elaboradas, são edifícios erigidos pelo esforço de muitos. Os alunos não conseguem, só por si, formular ou compreender conhecimentos que outros levaram muito tempo a alcançar e a desenvolver.
As ciências, e sobretudo a matemática, não podem ser ensinadas como colecção de truques, como um conjunto de curiosidades, como uma sucessão de actividades. O aluno tem de perceber que se trata de um edifício estruturado. Por isso as matérias têm de ser ensinadas de forma estruturada, de forma organizada. É claro que essa deveria ser uma das primeiras preocupações dos programas oficiais. Infelizmente, muitas vezes estes obrigam a abordar as matérias de forma parcelar e a repescá-las em anos subsequentes, ficando o professor sem a possibilidade de as ensinar de forma completa e coerente quando as aborda pela primeira vez.
Um psicólogo célebre disse um dia que “sempre que ensino a uma criança algo que ela poderia ter aprendido por si, retiro-lhe a possibilidade de o aprender realmente.” Nuno Crato não concorda. É a própria psicologia que diz que aprender por outro é melhor e mais eficaz do que aprender por si. Isto não significa, porém, que o ensino se esgota na figura do professor, ou que a figura central na sala de aula é o professor. A questão não é essa.
A questão é que o professor não deve abdicar de conduzir o processo de aprendizagem dos alunos. É claro que uma das formas de conduzir esse processo é organizar as coisas de tal forma que o aluno chega a uma certa conclusão, como que, por si próprio. Mas não nos iludamos sobre o papel do professor neste tipo de aprendizagem. E Nuno Crato cita um trecho de Rómulo de Carvalho, retirado duma colectânea de artigos deste conhecido pedagogo, publicada pela Gradiva sob o título “Rómulo de Carvalho. Ser professor”:
“Embora a indução provocada pela experiência seja, no ensino liceal da Física, um recurso de emprego frequente pelos seus êxitos fáceis, não queremos deixar em silêncio os perigos que esconde.
Entre a experiência efectuada e a respectiva indução que se deseja provocar abre-se um fundo abismo, embora muitas vezes o professor se maravilhe, inadvertidamente, com a facilidade da generalização que conseguiu obter dos alunos. O professor, no seu hábito de insinuar o que deseja transmitir, não chega a dar conta da ponte levadiça que fez baixar sobre o fosso que separava a experiência da respectiva indução, e pela qual os alunos passaram vitoriosamente” (p.50).
Levar o aluno a generalizar o resultado de uma experiência, ou orientá-lo na reconstrução de um conhecimento, é seguramente uma boa estratégia de ensino. Mas o professor não se pode deslumbrar com este tipo de estratégia ao ponto de pensar que o aluno chegaria à mesma
conclusão sem a participação do professor no processo.
Em terceiro lugar, para ser bom professor é preciso saber comunicar.
Para ser bom professor não é necessário ser um génio da comunicação, mas é necessário dar atenção à comunicação. Nuno Crato deu o exemplo de um professor seu, dos tempos em que estudava matemática no ensino superior, o qual tinha um conhecimento e um domínio profundos das matérias que leccionava e que as expunha de uma forma extremamente organizada. As suas aulas eram ipsis verbis aquilo que vinha escrito no livro que havia publicado sobre o assunto. Não obstante, a suas aulas eram uma conversa entre ele e o quadro, onde escrevia minuciosamente o que dizia. Não admira pois que as aulas desse professor terminassem, invariavelmente, com ele a despedir-se do quadro, uma vez que os seus alunos há muito tinham abandonado a sala de aula.
Finalmente, para se ser um bom professor é imprescindível respeitar os alunos e impor a disciplina.
Nuno Crato diz que, quando regressou dos Estados Unidos e começou a dar aulas em Portugal, ficou estupefacto com a agitação dentre das salas de aula. Os alunos achavam normal entrar e a sair da sala de aula e trocar impressões uns com os outros durante o decorrer da aula. Isto contrastava fortemente com aquilo a que se tinha habituado na América, onde os seus alunos, quando assistiam a uma aula, para virar uma folha do caderno de apontamentos, tinham o cuidado de o fazer com o mínimo barulho para não perturbar a aula.
Apesar de, na sua forma e aplicação, o respeito e a disciplina dependerem do tipo de aula e do grau de ensino, ambos são condições imprescindíveis para o sucesso no ensino de qualquer ciência. Nuno Crato diz que, no seu caso, resolveu fazer um contrato com os alunos: “5 minutos depois de começar a aula fecho a porta e 5 minutos antes de terminar vocês podem sair não importa em que ponto eu estiver.” É uma solução pontual e, aparentemente, só possível no ensino superior. No caso geral, como reconheceu o c
No final da conferência, Nuno Crato respondeu a várias perguntas e debateu várias questões levantadas por docentes e alunos da ESE Almeida Garrett. O conferencista deteve-se, em particular, sobre algumas questões, levantadas pelas alunas finalistas da escola, acerca do ensino da aritmética nos primeiros anos do ensino básico, sobretudo do ensino do tradicional algoritmo da divisão.
Nuno Crato explicou que se têm cometido alguns erros nesse domínio. As ideias românticas, que influenciaram as orientações das autoridades educativas durante alguns anos, levaram a que se minorasse a importância da memorização da tabuada e da mecanização dos algorítmos aritméticos tradicionais. Estas orientações levaram a que hoje nos deparemos com muitos alunos que não conseguem executar uma operação aritmética simples sem recorrer a uma calculadora. Nuno Crato deu o exemplo de uma jovem a quem, uma vez, perguntou quantos eram 16 a dividir por 4. A jovem disse-lhe que para efectuar a divisão lhe tinham ensinado a subtrair o 4 várias vezes a 16 até chegar a um resto menor do que 4. Neste caso, depois de subtrair o quatro quatro vezes, o resto é zero, por isso o resultado é 4.
É claro que se esta jovem soubesse a tabuada, onde 4 vezes 4 são 16, a resposta seria imediata.
O conhecimento da tabuada e das formas tradicionais de adicionar, subtrair, multiplicar e dividir, permitem-nos executar todas as operações aritméticas básicas de forma rápida e correcta. Ao contrário do que se pensou durante alguns anos, estes conhecimentos induzem também uma mais profunda compreensão das próprias operações aritméticas e do sistema decimal, que está na base da representação de todos os números que utilizamos. Além disso, sabe-se hoje que estes conhecimentos são cruciais para o desenvolvimento da capacidade de estimar resultados de cálculos antes mesmo de os executarmos.
Enfim, coisas que um bom professor não pode deixar de saber.

